4ª encontro anual do Banco dos BRICS: questionamentos e desafios para um desenvolvimento alternativo.

Ana Rachel S. Fortes;

Bruno Haeming

 

Entre os dias 31 de Março e 2 de Abril foi realizado o 4ª encontro anual do Banco dos BRICS, o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), em ingles New Development Bank (NDB), na Cidade do Cabo, África do Sul. O tema central deste ano foi “Parcerias de Sucesso para o Desenvolvimento Sustentável”, que visa a dar continuidade na ideia inicial da fundação do banco: viabilizar investimento em infraestrutura e projetos voltados para o desenvolvimento sustentável.  O encontro contou com a participação dos Ministros das Finanças da China Liu Kun, da África do Sul, Tito Mboweni e dos secretários de comércio exterior do Brasil Marcos Troyjo, da Rússia Sergei Storchak e da Índia Subhash Chandra Garg, além de banqueiros, empresários e representantes de organizações da sociedade civil.

Nesta conferência foram assinados cinco acordos: o primeiro e o segundo são acordos entre o NDB e o Banco de Desenvolvimento da África Austral (DBSA) para o projeto de redução de emissões de gases de efeito estufa e Desenvolvimento do Setor de Energia. O NDB fornecerá um empréstimo de até US$ 300 milhões; o terceiro é um empréstimo para a empresa do ramo de energia Eskom no valor de US$ 480 milhões, sendo 180 milhões para uma planta de produção de energia renovável de 670 Megawatts (MW) e 300 milhões de dólares para projetos de redução de poluentes e proteção do meio ambiente; o quarto é para a um projeto interligação de suprimento de água  em Shengzhou, no valor de US$ 123 milhões e o  quinto foi para Guanxi Chongzhou, em um projeto voltado para restauração do sistema de se suprimento urbanos de fornecimento de água, no valor de US$ 300 milhões.  (NEW DEVELOPMENT BANK, 2019)

O Novo Banco do Desenvolvimento foi criado a partir das negociações que transcorreram por pouco mais de dois anos até a assinatura do Convênio Constitutivo na cúpula dos BRICS em Fortaleza, em julho de 2014 (GARCIA et al. 2018). Atualmente o Banco possui dois escritórios regionais[1]: em Xangai na China e outro em Joanesburgo na África do Sul, Sendo aprovados mais de 30 projetos na área de infraestrutura e energia renovável, majoritariamente projetos na China, na África do Sul e na Índia.

Em dois anos, o NBD teve um aumento de aproximadamente 48% em seu orçamento autorizado, de US$ 45,87 milhões de dólares em 2017 chegando a US$ 68 milhões autorizados para o ano de 2019. Além de um orçamento operacional aumentado, as expectativas para empréstimos e emissão de título na moeda dos países participantes estavam orçadas em US$ 7,5 bilhões de dólares no “Resumo do orçamento para 2019” na página oficial do banco, o que poderia se considerar um movimento mais incisivo, em especial pois também busca operar com maior peso no setor privado. Todavia, nesta conferência o presidente da instituição, K.V Kamath, anunciou que a cifra bilionária  de 7,5 bilhões de dólares seria mais que dobrada, atingindo o montante de US$ 16 bilhões. Para atingir tal objetivo, o banco utilizará mecanismos financeiros na forma de emissão de títulos nos mercados de capitais, possibilitando a captação de recursos (NEW DEVELOPMENT BANK, 2019).

Em suma, o banco além de contar com a captação de recursos via aporte dos países participantes, vai buscar aumentar a quantia disponível através da emissão de títulos no mercado financeiro, esses denominados nas moedas dos países participantes. Em comparação, o início do último trimestre operacional do NBD em 2017 e 2018, houve um aumento do lucro de  aproximadamente 4%, mas isso deve aumentar se forem confirmadas as expectativas de empréstimos anunciadas pelo presidente (NEW DEVELOPMENT BANK, 2019). Nesse contexto, o movimento de maior abertura para captação externa que o banco está se propondo através da emissão de títulos, expressa a receptividade que os mercados financeiros têm com o NBD.

No ano de 2018 a classificação do banco foi elevada para o AA+ pela Standard & Poor’s (S&P) para sua atuação de longo prazo, sendo esse o segundo maior grau de investimento, perdendo apenas para o AAA. O estreitamento do banco com o mercado financeiro pode ter explicações técnicas, como uma maior possibilidade de alavancagem da instituição e maior viabilização de empréstimo, mas em contrapartida, o mercado financeiro e as agências de rating possuem mecanismos de avaliação da qualidade dos empréstimos bastante rígidos, e eles se assemelham aos parâmetros utilizados nas instituições tradicionais derivadas de Bretton Woods, como Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial.

Essas instituições aplicaram tais parâmetros de qualidade de empréstimos na forma de condicionalidades nos contratos celebrados com diversos países, e tal aplicação das condicionalidades ficou famosas quando da crise da dívida externa na América Latina nos anos 1980 e no Leste Europeu nos anos 1990. Elas impuseram políticas de austeridade e uma orientação para o setor privados dessas economias, algo que diverge da lógica de atuação dos BRICS/China, e se aproxima da lógica financeira do capitalismo.

Dessa forma, as relações entre mercados e NBD podem sofrer fricções, na medida em que a classificação de risco se torna um atrativo para investidores, e se a capacidade de empréstimo se torna cada vez mais atrelada a visão do mercado em relação a instituição,  a orientação do banco e sua política de empréstimos pode ser direcionada para atender as demandas do mercado financeiro, algo que foge a proposta multilateral e inclusiva dos BRICS (e por consequência do NBD), e o tornaria muito parecido com demais instituições, ou seja: será mais do mesmo.

Levando em consideração o contexto em que surgiu o NBD, cabe questionar se haverá, e, se sim, quais serão as principais diferenças desta nova instituição com relação as instituições criadas em Bretton Woods. De acordo com Garcia et al. (2018, p. 20), “embora sejam novos arranjos multilaterais intimamente conectados a uma estratégia mais ampla de financiamento de infraestrutura, eles mesmos não se apresentam abertamente como uma alternativa contra-hegemônica”.

Isso ajuda a entender também às críticas de certos movimentos da sociedade civil ao NDB. O discurso de governança igualitária, bem como uma esperada abertura para o diálogo com a sociedade, eram pontos positivos que o diferenciavam no setor em que atua, das instituições financeiras tradicionais. No entanto, apesar de ter avançado em alguns temas importantes, há ainda um longo caminho a percorrer em áreas como política de gênero, critérios ambientais para aprovação de projetos e acesso à informação para a sociedade civil. (OXFAM, 2018).

Sendo assim,   essas críticas são pertinentes para o NBD, já que se propõe a estabelecer algo novo e atuar de modo diferente. Por ainda ser um projeto em construção, tais questões só poderão ser respondidas ao longo do tempo. De toda forma, a criação do Banco de Desenvolvimento foi um passo importante na direção de uma institucionalização do BRICS, o qual é visto pelos países membros como uma forma de fortalecer a cooperação entre eles, além de colaborar para o crescimento, sustentável e equilibrado, complementando, assim, os esforços de outras organizações internacionais e regionais para o desenvolvimento global.

 

Referências

GARCIA; RAMOS; RODRIGUES; PAUTASSO. Adensamento institucional e outreach: um breve balanço do BRICS. Carta Internacional. Belo Horizonte, v.13, n.3,2018, p.5-26.

NEW DEVELOPMENT BANK, 2019. Disponível em: < https://www.ndb.int/wp-content/uploads/2018/07/NDB_AR2017.pdf\ >. Acesso em: 15 abr. 2019

NEW DEVELOPMENT BANK, 2019. Disponível em: <  https://www.ndb.int/wp-content/uploads/2017/09/NDB-Budget-2017-190917_FIN.pdf >. Acesso em: 15 abr. 2019

NEW DEVELOPMENT BANK, 2019. Disponível em: https://www.fin24.com/Economy/time-for-brics-to-expand-membership-say-new-development-bank-governors-20190401. Acesso em: 15 abr. 2019

NEW DEVELOPMENT BANK, 2019. Disponível em: < https://www.ndb.int/wp-content/uploads/2018/11/Unaudited-Financial-Statements-for-the-nine-months-ended-September-2018.pdf. > Acesso em: 15 abr. 2019.

NEW DEVELOPMENT BANK, 2019. Disponível em< https://www.rt.com/business/437210-brics-bank-strong-rating/&gt; Acesso em: 15 abr. 2019.

NOVO banco de desenvolvimento (NBD) revela planos ambiciosos para encorajar empréstimos e aumentar o impacto de investimentos. Exame, São Paulo,2019. Disponível em: < https://exame.abril.com.br/negocios/releases/novo-banco-de-desenvolvimento-nbd-revela-planos-ambiciosos-para-encorajar-emprestimos-e-aumentar-o-impacto-de-investimentos/. >Acesso em: 15 abr.2019

OXFAM. Os desafios para incidência sobre o Novo Banco de Desenvolvimento do BRICS. OXFAM Brasil, São Paulo, 2018. Disponível em: < https://www.oxfam.org.br/noticias/os-desafios-para-incidencia-sobre-o-novo-banco-de-desenvolvimento-do-brics.> Acesso em: 15 abr. 2019.

[1] Cabe ressaltar que em julho de 2018 na X cúpula do BRICS foi assinado um acordo entre os membros para a abertura de um novo escritório regional em São Paulo, com inauguração prevista para este ano. Ver em: http://www.itamaraty.gov.br/pt-BR/notas-a-imprensa/19195-escritorio-regional-das-americas-do-novo-banco-de-desenvolvimento.

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Seminário Internacional Sino-Brasileiro: Economia e Desenvolvimento

Como parte das comemorações dos cinco anos do Instituto Confúcio em Pernambuco, a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) sedia o Seminário Internacional Sino-Brasileiro, que acontece no dia 23 no auditório do térreo do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH) e no dia 24 no Instituto Confúcio. O evento é uma parceria entre o Instituto de Estudos da Ásia da UFPE, a Universidade de Pernambuco (UPE) e a Universidade Central de Finanças e Economia da China (Cufe).

Durante o Seminário Internacional Sino-Brasileiro, o Instituto de Estudos da Ásia, pela editora UFPE, fará o lançamento e venda do livro “Sobre a China”, que reúne artigos de diversos pesquisadores da área, incluindo um capítulo dos membros do GPPM Professor Javier Vadell, Professor Leonardo Ramos e Bárbara Adad.

A imagem pode conter: 6 pessoas, incluindo Marcos Costa Lima, pessoas em pé, tela e área interna

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1ª Conferência CEBRI-BNDES: Caminhos para o Amanhã

O Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI), em parceria com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e Fundação Konrad Adenauer (KAS), convidam para a 1ª Conferência Anual CEBRI-BNDES – Diálogos para o Amanhã, a ser realizada no próximo dia 21 de novembro (quarta-feira), das 09h às 18h.

Um dos painéis contará com a fala do Professor Javier Vadell, Coordenador do GPPM, representando a Rede Brasileira de Estudos sobre a China – RBCinha, apresentado a partir das 14 horas.

Para acessar o programa, clique aqui

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Declaração conjunta da Rede Brasileira de Estudos da China destaca importância da política de Estado sino-brasileira

Por Janaína Silveira

Beijing, 1º nov (Xinhuanet) — Integrantes da Rede Brasileira de Estudos da China (RBChina) divulgaram nesta semana uma declaração conjunta sobre as relações sino-brasileiras em que destacam o caráter de política de Estado envolvendo as trocas entre os dois países. O documento, assinado por dezenas de integrantes da RBChina, trata também da importância das trocas comerciais entre Brasil e China e pontua intercâmbios em ciência e tecnologia, entre outros pontos.

O documento ressalta também o quanto é necessário que se aprofundem os estudos sobre a China no Brasil, a fim de que se possa ter um corpo técnico e acadêmico plural e interdisciplinar que esteja apto a discutir e auxiliar na tomada de decisões relacionadas à relação bilateral.

No texto, os signatários, que abarcam acadêmicos, jornalistas, diplomatas, executivos, entre outros profissionais, deixam claro que a relação sino-brasileira é uma política de estado, que se expressa em diferentes mecanismos de diálogo e trocas, sejam estas bilaterais, caso da Comissão Sino-Brasileira de Cooperação e Concertação (Cosban), ou multilaterais, que tem o BRICS como um dos exemplos. O grupo de países em desenvolvimento abarca, além de China e Brasil, Índia, Rússia e África do Sul. A cúpula dos BRICS de 2019, aliás, será realizada no Brasil, país que também receberá no próximo ano um escritório de representação do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB, em inglês), a instituição cuja criação foi gestada durante a Cúpula dos BRICS de 2014, em Fortaleza, e que reúne os países dos BRICS.

A RBChina realizou o primeiro encontro na última semana, em Belo Horizonte, capital do estado brasileiro de Minas Gerais, nas dependências da Pontifícia Universidade Católica (PUC Minas). O evento teve também apoio da Embaixada da China no Brasil e da Associação de Amizade do Povo da China com os Países Estrangeiros, entidade vinculada ao Ministério de Relações Exteriores da China, que trouxeram ao país três acadêmicos para discutirem temas como o Cinturão e Rota, iniciativa chinesa que tem por objetivo apoiar a construção de infraestrutura em países estrangeiros e que já abarca a América Latina, as mudanças institucionais e constitucionais por que passou a China recentemente e os investimentos chineses na América Latina.

Em dois dias de evento, os brasileiros também apresentaram seus temas de pesquisa sobre o gigante asiático e seus campos de atuação profissional, incluindo cultura, negócios, economia, relações sino-brasileiras e impactos da guerra comercial entre os Estados Unidos e a China, entre outros temas. No ano que vem, a RBChina irá se reunir na Universidade de Campinas (Unicamp), uma das mais prestigiosas do Brasil e que fica no Estado de São Paulo. A data do próximo encontro ainda não está confirmada.

http://portuguese.xinhuanet.com/2018-11/01/c_137573913.htm

Para acessar a declaração completa, clique aqui.

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1° Encontro da Rede Brasileira de Estudos de China – RBCHINA

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Aconteceu nos últimos dias 22 e 23 de outubro, em belo Horizonte, o 1° Encontro da Rede Brasileira de Estudos de China – RBCHINA. Sediado pela PUC Minas, o evento aconteceu no âmbito do IV Seminário Internacional das Potências Médias e contou com o apoio da embaixada da República Popular da China e da Associação do Povo Chinês Para Amizade com Países Estrangeiros.

Criada em 2017, a Rede conta com cerca de 170 integrantes de variadas profissões, como acadêmicos, jornalistas, estudantes, advogados, diplomatas, cientistas, consultores, artistas, militares e empresários e tem entre os seus objetivos fomentar o interesse no campo de pesquisa sino-brasileiro. Durante o evento, ocorreu também a primeira reunião física dos membros da RBCHINA, onde os membros deliberaram sobre os encaminhamentos do encontro e os próximos passos da Rede, bem como emitiram uma declaração oficial do encontro.

 

foto oficial

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1º Encontro da Rede Brasileira de Estudos da China – RBCHINA

Tendo como base a liberdade de opinião e de abordagens teóricas e o respeito mútuo, a Rede Brasileira de Estudos da China (RBCHINA) começou a se articular em novembro de 2017 e hoje construiu uma rede com mais de 140 pessoas espalhadas pelos diversos estados brasileiros e também em outros países.

Com vistas a congregar esta comunidade, a Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais – PUC – MINAS, que atualmente coordena os trabalhos da nova entidade, irá sediar o I Encontro da Rede Brasileira de Estudos da China – RBCHINA: Brasil e China num contexto de incertezas mundiais, na cidade de Belo Horizonte, nos dias 22 e 23 de outubro de 2018. Este evento contará com a participação de especialistas brasileiros e chineses de diferentes campos de atividade, que discutirão os papéis de Brasil e China na política internacional, os desafios impostos pelo novo cenário econômico mundial, as transformações políticas e sociais recentes da China, os múltiplos aspectos das relações sino-brasileiras e ainda alguns componentes essenciais da filosofia e da cultura chinesas. Além de propiciar um espaço para o intercâmbio de experiências entre os especialistas chineses e seus pares brasileiros, o I Encontro da Rede Brasileira de Estudos da China tem por objetivo despertar o interesse dos estudantes brasileiros neste promissor campo de pesquisa.

O evento conta com o apoio da Embaixada da China no Brasil e da Associação de Amizade do Povo da China com os Países Estrangeiros (uma entidade vinculada ao Ministério de Relações Exteriores da República Popular da China), que estão organizando a vinda ao Brasil dos acadêmicos chineses.

Para mais informações sobre o evento e programação completa clique na imagem abaixo

Seminário CHINA

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X Cúpula do BRICS: reivindicações e arranjos para um sistema internacional multilateral

Por Leonardo Ramos; Javier Vadell; Ana Rachel Fortes

 

 “O BRICS na África: Colaboração para Crescimento Inclusivo e Prosperidade Comum em meio à 4° Revolução Industrial” foi o tema da X cúpula dos BRICS que ocorreu, entre os dias 25 e 27 de julho, na cidade de Joanesburgo na África do Sul. O tema deste ano é reflexo de uma das prioridades centrais dos membros do bloco, que consiste na ampliação de suas parcerias bem como da preocupação chinesa com as questões relativas à chamada 4ª Revolução Industrial ou Revolução 4.0 (BRICS, 2018). Dentre as pautas discutidas destacam-se: Primeiro, a possibilidade de um aprofundamento da cooperação econômica entre os países membros, para um crescimento inclusivo em meio aos avanços da quarta revolução industrial; segundo, a criação do Escritório Regional das Américas do Novo Banco de Desenvolvimento do BRICS (NBD), em São Paulo; e terceiro, a consolidação do BRICS Plus[1].

Ademais, o possível estabelecimento de um Centro de Pesquisa em Vacinas do BRICS, a criação de um Fórum de Gênero e Mulheres, a formação de um Grupo sobre Manutenção da Paz e a fomentação de projetos do BRICS para o turismo, também foram questões abordadas durante a conferência.

As discussões sobre a quarta revolução industrial enfatizaram a importância dos BRICS nessa atual contexto de industrialização e crescimento impulsionados pela tecnologia. Essa nova dinamização das relações de produção tendem a favorecer os países mais desenvolvidos, devido ao seu maior acesso à tecnologia e à capacidade de inovação, e por isso, esses novos padrões podem ter impacto significante no crescimento das economias emergentes, visto que esses países, ainda permanecem na segunda ou no início da terceira fase da revolução industrial, como por exemplo, o caso do Brasil e da África do Sul. (CARTA CAPITAL, 2016)

Nesse sentido, foi estabelecida a Parceria do BRICS sobre a Nova Revolução Industrial (PartNIR), segundo a qual a quarta revolução industrial deve ser abordada de maneira colaborativa entre o BRICS, como também ser sustentada por uma agenda comum para o desenvolvimento, sendo importante a cooperação em áreas de energia, indústria, ciência, tecnologia e inovação, a fim de garantir a competitividade à indústria dos países em desenvolvimento dando mais eficiência as linhas de produção, frente a transformação que ganha corpo na Europa e nos Estados Unidos (BRICS, 2018, §56).

Em um contexto de instabilidades no sistema internacional no que se refere a práticas protecionistas de países do Norte, ficou claro durante a X cúpula a prioridade de questões como multilateralismo e barreiras comerciais. A posição contrária às medidas protecionistas não é uma novidade nas declarações do BRICS; no entanto, destaca-se o fato de que em Joanesburgo houve o primeiro comunicado conjunto após os embates comerciais entre China e Estados Unidos[2]. As lideranças presentes frisaram que as decisões unilaterais do governo Donald Trump põem em risco o crescimento da economia global, principalmente dos países em desenvolvimento. Por conseguinte, foi enfatizada a necessidade do cumprimento dos princípios e normas da Organização Mundial do Comércio (OMC), para evitar que os interesses de alguns países sejam colocados acima dos de outros.

Diante deste cenário, o presidente  Michel Temer pediu ao líder da China, Xi Jinping, que retire a sobretaxa sobre exportações brasileiras de açúcar e carne de frango no país. Ainda assim, o presidente brasileiro não obteve nenhum compromisso concreto do presidente chinês de rever as políticas[3]. (BBC, 2018)

No encontro foi estabelecido o acordo para a instalação do Escritório Regional das Américas do Novo Banco de Desenvolvimento do BRICS (NBD), cuja sede será em São Paulo, com inauguração prevista para 2019 e será voltado para financiamentos em infraestrutura. O Escritório Regional das Américas pretende estimular a prospecção e desenvolvimento de projetos no Brasil e região, particularmente “no financiamento de grandes obras, construção de ferrovias e modernização dos portos para baratear as exportações para a China, a Rússia e toda a África”, como afirma Alexandre Espírito Santo, economista-chefe da Órama Investimentos (Fagundes, 2018).

Além do mais, também foi assinado o acordo de cooperação na área de aviação regional, cujo propósito é promover troca de experiências nos setores de aeronáutica e de serviços de navegação aérea (PLANALTO, 2018).

Embora tenha se discutido a importância do estabelecimento de um Fórum de Gênero e Mulheres dos BRICS, da criação de um grupo sobre Manutenção da Paz e da possível cooperação do BRICS em projetos para o turismo, não houve avanço nestes temas. Outros acordos que se esperava finalizar não foram concluídos, entre eles a criação de um centro de pesquisa em vacinas e de cooperação para uso de imagens de satélites.

Durante o encontro os líderes do bloco prestaram uma pequena homenagem ao centenário do nascimento de Nelson Mandela destacando seus valores, princípios e sua contribuição para a luta pela democracia e pela promoção da paz em todo o mundo (BRICS, 2018). Além disso, o presidente sul-africano Cyril Ramaphosa, salientou a importância da cooperação Sul-Sul para o desenvolvimento da África, reafirmando que a aproximação com os BRICS possibilita uma nova via de cooperação e diversificação político-econômica para os países africanos.

A cúpula de Joanesburgo contou com a participação dos presidentes de Ruanda, Senegal, Gabão, Uganda, Etiópia, Togo, Zâmbia, Namíbia, Angola, Argentina, Indonésia, Egito, Jamaica, Turquia, o secretário-geral da ONU e o secretário da União Africana. O intuito de convidar outros Estados para a cúpula visa fomentar a cooperação entre países em desenvolvimento e ampliar as discussões sobre a conjuntura internacional. Essa iniciativa, relacionada ao processo de outreach do BRICS e desde a cúpula de Xianmen nomeada de BRICS Plus, tem sido defendida particularmente pelo governo chinês, e foi claramente continuada pelo governo da África do Sul neste ano.

Contudo, essa proposta levanta algumas questões: se a ampliação do BRICS reforçará a iniciativa original que deu ênfase à reforma das instituições internacionais – haja vista uma maior participação dos países BRICS nos processos decisórios internacionais – ou se tende a se transformar, numa plataforma econômica para os investimentos e trocas comerciais. Ora, tais questões, embora não sejam contraditórias, podem potencialmente apontar para rumos distintos que o bloco poderia acabar tomando nos próximos anos (CARVALHO, 2017).

Por fim, pode- se observar tensões e desafios vindos dos países BRICS frente às potências tradicionais. É notória, a reivindicação coletiva desses países, por reformas nas instituições financeiras multilaterais. Nesta cúpula, o BRICS insistiu na importância de uma economia global aberta e inclusiva, que permita a todos os países compartilhar os benefícios da globalização – consenso este que se coloca em clara oposição face ao que ocorreu na última cúpula do G7, marcada pela divergência de interesses entre o governo Trump e os demais países do grupo.

Considerações finais

Mesmo com os percalços econômicos nos últimos anos, o BRICS desempenha papel fundamental na economia mundial em termos de produção total, investimentos recebidos em bens de capital e de mercados de consumo. Embora haja diversos conflitos de interesse entre os países do BRICS, o grupo se tornou um mecanismo político diplomático significativo para reivindicação de seus propósitos no cenário internacional.

No que concerne a cúpula de Joanesburgo destacam-se a assinatura do acordo para a instalação do Escritório Regional das Américas do Novo Banco de Desenvolvimento do BRICS, em São Paulo, como também as discussões sobre avanços da quarta revolução industrial e suas implicações para as economias emergentes. Ademais é importante ressaltar o comunicado conjunto do BRICS contra as medidas protecionistas de países desenvolvidos. Nessa perspectiva, a partir da promoção do BRICS Plus, a X cúpula foi uma oportunidade para os líderes do bloco reafirmarem em Joanesburgo a aposta pelo multilateralismo e que se traduza em benefícios não só aos cinco membros, mas também para outros países em desenvolvimento.

Referências

BRICS bloc signs declaration reaffirming multilateral trade as per  wto rules. New York Times, 2018.  Disponível em: < https://www.nytimes.com/reuters/2018/07/26/world/26reuters-safrica-brics-declaration.html?rref=collection%2Ftimestopic%2FBRIC%20Group. Acesso em : 30 de jul. 2018

BRICS completa 10 anos com nova reunião.  Planalto, 2018. Disponível em: http://www2.planalto.gov.br/acompanhe-planalto/releases/2018/07/brics-completa-10-anos-com-nova-reuniao-de-cupula-na-africa-do-sul-1. Acesso em: 30 de jul. 2018.

BRICS. Johanesburg Declaration. Johanesburg, 2018. Disponível em: http://www.brics2018.org.za/sites/default/files/documents/johannesburg%20declaration%20-%2026%20july%202018%20as%20at%2007h11.pdf. Acesso em: 30 jul.2018

CARVALHO, Evandro.  BRICS Plus e o futuro da “agenda BRICS”. China Hoje, São Paulo, out. 2017. Disponível em: http://www.chinahoje.net/brics-plus-e-o-futuro-da-agenda-brics/. Acesso em: 17 de ago. 2018.

CÚPULA do BRICS pedirá apoio a organismos multilaterais. Correio braziliense, 2018. Disponível em:  https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/economia/2018/07/25/internas_economia,697255/cupula-do-brics-pedira-apoio-a-organismos-multilaterais.shtml. Acesso em: 30 de jul. 2018

EM fim de governo, Temer tem dificuldades em usar brics para melhorar imagem. BBC Brasil, 2018. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-44978742?ocid=socialflow_twitter. Acesso em: 30 de jul. 2018

EM reunião do brics temer pede fim da sobretaxa ao frango e ao açúcar. Globo, 2018. Disponível em: https://g1.globo.com/economia/noticia/2018/07/26/em-reuniao-do-brics-temer-pede-a-china-fim-da-sobretaxa-ao-frango-e-ao-acucar.ghtml. Acesso em: 30 jul. 2018.

Fagundes, Ernani. NDB, o banco dos Brics, e o BNDES terão papéis complementares no País. https://www.dci.com.br/economia/ndb-o-banco-dos-brics-e-o-bndes-ter-o-papeis-complementares-no-pais-1.728928

RAMOS, Leonardo;  LIMA, Marcos;  SINGI, José Luis; LOPES, Barbara. VII CÚPULA DOS BRICS: Êxito ou fracasso? Grupo de Pesquisa Potências Médias, Belo Horizonte, 2015.  Disponível em: https://grupoemergentes.wordpress.com/2015/08/07/vii-cupula-dos-brics-exito-ou-fracasso/ . Acesso em: 30 de jul.2018

TEMER fala em aproximação com a áfrica e deixa cúlpula do brics antes de terminar a reunião. Globo. 2018. Disponível em: https://g1.globo.com/politica/noticia/2018/07/27/temer-fala-em-aproximacao-com-a-africa-e-deixa-cupula-do-brics-antes-de-terminar-reuniao-com-africanos.ghtml. Acesso em: 30 jul. 2018.

X cúpula do brics começa hoje em joanesburgo. Carta Capital,2018. Disponíve em: h ttp://justificando.cartacapital.com.br/2018/07/25/x-cupula-do-brics-comeca-hoje-em-johanesburgo-na-africa-do-sul/. Acesso em: 30 de jul.2018

WELLE, Deustch. Brasil precisa se adaptar a mundo menos centrado no ocidente. Carta Capital, 2018. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/internacional/brasil-precisa-se-adaptar-a-mundo-menos-centrado-no-ocidente. Acesso em: 30 de jul. 2018.

WOLF , Paulo José;  OLIVEIRA, Giuliano. Fórum Econômico Mundial: os desafios da “Quarta Revolução Industrial. Carta Capital, São Paulo, 2016. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/blogs/blog-do-grri/forum-economico-mundial-os-desafios-da-quarta-revolucao-industrial. Acesso em: 17 de ago. 2018

[1] A ideia foi proposta pelo o Ministro chinês de Relações Exteriores, Wang Yi, durante a IX Cúpula do BRICS em Xiamen, China. O objetivo é construir uma parceria mais ampla, mantendo diálogos com outros países em desenvolvimento, para transformar o grupo em uma plataforma mais ativa para a cooperação Sul-Sul. Disponível em: http://br.rfi.fr/mundo/20170420-linha-direta-china-brics-plus. Acesso em: 17 de ago. 2018

[2]O estopim da tensão ocorreu quando os EUA impuseram tarifas de 25% sobre a importação de aço e 10% sobre o alumínio de diversos países. O que levou a China a recorre na Organização Mundial do Comércio (OMC). Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-44745494. Acesso em: 30 jul. 2018

[3] Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/brasil-44978742&gt;. Acesso em: 30 jul.2018

 

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Participação do professor Leonardo Ramos no programa Horizonte Debate na TV Horizonte

O professor Leonardo Ramos, membro do GPPM, participou do programa Horizonte Debate, na TV Horizonte, tratando sobre os 10 anos dos BRICS.

Para assistir à participação do professor no programa, clique aqui

 

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Chamada de Artigos/ Call for Papers Seminário Internacional Sino-Brasileiro: Economia e Desenvolvimento

Estão abertas as inscrições para submissão de artigos para o Seminário Internacional Sino-Brasileiro: Economia e Desenvolvimento que ocorrerá nos dias 23 e 24 de novembro de 2018. O evento faz parte das comemorações de 5 anos do Instituto Confúcio em Pernambuco e será realizado em parceria com o Instituto de Estudos da Ásia (UFPE), a Universidade de Pernambuco (UPE) e a Universidade Central de Finanças e Economia da China (CUFE).

Até 30 de setembro estudantes de programas de mestrado e doutorado podem submeter seus resumos através do e-mail ieasia.ufpe@gmail.com. O evento será realizado em inglês, logo os trabalhos deverão ser apresentados em inglês.

Regras para submissão de papers:

• Resumo estendido de até 2 páginas (normas completas no anexo);
• Data limite para submissão dos resumos: 30 de setembro de 2018;
• Data de divulgação da seleção: até 03 de outubro de 2018;
• Papers completos deverão ser submetidos através do e-mail ieasia.ufpe@gmail.com até o dia 01 de novembro de 2018.

Para maiores informações clique aqui

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Lançamento do Livro ‘A expansão econômica e geopolítica da China no século XXI’

O livro A expansão econômica e geopolítica da China no século XXI organizado pelo Professor Javier Vadell, Coordenador do GPPM, foi lançado e está disponível para compra.

Com o objetivo de analisar as múltiplas e complexas dimensões deste processo, a partir do olhar de acadêmicos nacionais e internacionais, o livro aborda as relações da China com os Estados Unidos da América, com a União Europeia, com a América Latina e o Caribe, com a África e, especificamente, com o Brasil.

Para saber mais e comprar o livro clique aqui.

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