A ELEIÇÃO DE BUHARI E O FUTURO DAS RELAÇÕES SINO-NIGERIANAS: ALGUNS APONTAMENTOS

por Bárbara Ferreira Lopes[1]

As eleições na Nigéria nos dias 28 e 29 de março marcaram uma mudança no quadro governamental do país africano. A disputa presidencial foi vencida pelo partido de oposição, o All Progressive Congress (APC), liderado por Muhammadu Buhari. Pela primeira vez desde a volta do regime democrático, em 1999, o partido de situação será retirado do poder – Jonathan Goodluck buscava a sua reeleição pelo People’s Democratic Party (PDP).

A troca de poder na Nigéria foi um passo relevante para a democracia no país frente a crescente polarização étnica e religiosa entre a população do Norte e a do Sul da Nigéria. Apesar de problemas técnicos e ataques praticados por homens armados que mataram ao menos 20 pessoas, o Secretário Geral da Organização das Nações Unidas, Ban Ki-moon, e observadores internacionais elogiaram a transparência e a organização das eleições no país (BBC BRASIL, 2015).

Buhari assumirá um legado de desafios econômicos e de segurança nacional.  A economia nigeriana é altamente dependente das receitas provenientes das exportações de petróleo e gás natural – em 2012 representaram 96% do total da receita de exportação do país (EIA, 2013). Com a queda no preço do petróleo, o país enfrenta uma forte crise econômica e torna-se imprescindível a adoção de reformas para combater o desemprego entre os jovens e os altos níveis de pobreza na Nigéria.

Além disso, o novo governo deverá lutar contra a expansão das atividades do grupo terrorista Boko Haram no país. Após um ano desde o sequestro das 276 meninas estudantes, há uma forte pressão pra que a nova administração as encontre e as liberte das mãos do grupo. Em entrevista dada a CNN[2] um dia após a sua vitória, Buhari afirmou que está confiante que será capaz de diminuir os índices de violência no país, trabalhando em conjunto com outros países africanos vizinhos como Chade, Camarões e Níger.

Vale ressaltar que Buhari já governou o país anteriormente, assumindo o posto de Chefe de Estado após um golpe militar em 1983. Neste período Buhari sustentava os objetivos de erradicação da corrupção e reestruturação econômica nigeriana. Dentre as suas estratégias, buscou desenvolver a imagem da Nigéria como um país seguro e potencialmente rentável, atraindo investidores estrangeiros e novos recursos para a recuperação da economia nacional (OLIVEIRA, 2012). No entanto, as medidas governamentais de recuperação econômica não apresentaram os resultados esperados. Além disso, o seu regime militar mostrou-se repressivo a qualquer forma de indisciplina da população, sendo que Buhari proibiu greves de servidores públicos e manifestações em apoio à retomada do governo civil na época (COSTA, 2013).

A China como parceiro político-econômico no século XXI

Com a instauração do governo democrático na Nigéria e a nova orientação chinesa para África a partir de 2000 com a criação do Fórum de Cooperação China-África (FOCAC), as relações entre os dois países se intensificaram. A Nigéria passou a ser vista como uma importante fonte para o futuro abastecimento de petróleo chinês, tornando-se um país estratégico para os interesses de segurança energética da China. É o país da África Subsaariana com as maiores reservas petrolíferas, 37,2 bilhões de barris e produção de 2,5 milhões de barris por dia (b/d) (ALVES, 2012).

Além disso, como maior economia e país mais populoso do continente africano, a Nigéria é potencialmente o principal mercado para os produtos manufaturados chineses na África. Ao longo do século XXI, o governo chinês buscou desenvolver e fortalecer seus laços econômicos com a Nigéria, particularmente no setor petrolífero por meio de acordos preferencias para aquisição de blocos de exploração no país.

Sob o governo de Goodluck, a China declarou seu novo plano para uma parceria win-win com a Nigéria, expandindo a cooperação em áreas estratégicas como agricultura, petróleo, eletricidade, infraestrutura e telecomunicações. Neste processo, a China buscou articular a sua relação econômica com a Nigéria seguindo a estratégia oil for infrastructure.

Dentre os projetos de infraestrutura, em 2011, a China anunciou a construção de três refinarias e um complexo petrolífero na Nigéria. O investimento do projeto atingiu o valor de US$ 28,5 bilhões e será financiado por um consórcio de bancos chineses. O consórcio tem como objetivo manter um controle de 80% na participação dos projetos até que os custos sejam recuperados – a linha de crédito seria garantida em petróleo nigeriano. Além disso, em fevereiro de 2012, foi anunciado a negociação de um empréstimo de US$ 3 milhões com o China Exim Bank e o China Development Bank voltados à realização de diversos projetos nas áreas de transporte, aviação, educação e agricultura (ALVES, 2012). Em julho de 2013, durante a visita de Jonathan Goodluck à Pequim, o presidente assinou nove Memorandos com o governo chinês. A RPC concordou em fornecer ao país africano um empréstimo de US$ 1, 1 bilhão em troca do compromisso nigeriano em aumentar a oferta diária de petróleo à China (de 20 mil para 200 mil b/d) até 2015 (WAGNER; CAFIERO, 2013).

Em consonância com a participação das estatais chinesas na Nigéria, entre 2000 e 2010, o comércio bilateral anual sino-nigeriano aumentou noves vezes, de US$ 2 bilhões para o total de US$ 18 bilhões. No ano de 2012, a Nigéria importou mais produtos da China do que aqueles provenientes dos EUA e Índia em conjunto – os dois principais parceiros de importação do país africano. Atualmente, mais de 200 empresas chinesas operam na Nigéria (WAGNER; CAFIERO, 2013). De fato, o comércio entre China e Nigéria no ano de 2010 foi responsável por mais de 1/3 de todo o volume comercial chinês com a África Ocidental, o que demonstrou a importância estratégia que a Nigéria possui para a inserção chinesa no mercado regional africano (EGBULA; ZHENG, 2011).

No dia 3 de abril, o presidente chinês Xi Jinping enviou uma mensagem para felicitar Buhari por sua vitória nas eleições. O ano de 2015 marca o aniversário de 10 anos do Memorando de Entendimento de formação de uma parceria estratégica sino-nigeriana. O governo chinês ressaltou a importância da Nigéria na política externa chinesa e os novos esforços para que a relação bilateral alcance novos patamares (XINHUA NEWS, 2015).

O governo estadunidense mostrou-se favorável a transição governamental na Nigéria, sendo que o partido de Buhari teve apoio de uma empresa de consultoria dirigida pelo ex-conselheiro de campanha do presidente Obama, David Axelrod (GAIST, 2015). No entanto, o crescente engajamento chinês na Nigéria não deverá sofrer com a entrada de Buhari no poder, isto porque a China vem investindo em setores básicos do país, principalmente preenchendo o déficit existente entre as fontes tradicionais de financiamentos, Banco Mundial e Fundo Monetário Internacional, na mobilização de recursos ao setor de infraestrutura. Portanto, a China deve manter a estratégia oil for infrastructure para a Nigéria, comprometendo-se com grandes investimentos e outros benefícios aos países em troca da concessão na exploração do petróleo por suas empresas estatais.

 Quanto aos questionamentos sobre o histórico repressivo de Buhari, é importante destacar que a China defende os princípios de não ingerência em assuntos domésticos e de respeito mútuo à soberania e integridade territorial nas suas relações internacionais. Com base na política no strings attachment, a gestão pela qual o novo presidente deverá adotar em âmbito doméstico não deverá interferir no desenvolvimento político-econômico entre os dois países nos próximos anos..

Buhari tomará posse como novo presidente no dia 29 de maio e o primeiro encontro entre o líder nigeriano e Xi Jinping ocorrerá em dezembro de 2015 na África do Sul, durante a VI Conferência do FOCAC. A expectativa é que na reunião ambos os presidentes firmem novos acordos de cooperação bilateral de longo prazo, paralelamente aos Planos de Ação multilaterais comumente firmados entre a China e os demais Estados africanos.

REFERÊNCIA 

ALVES, Ana Cristina. China’s economic statecraft and african mineral resources: changing modes of engagement. Revista Carta Internacional, v.7, n. 2, p. 3-22, 2012. Disponível em: < http://cartainternacional.abri.org.br/index.php/Carta/article/view/56> Acesso em: 07 ago. 2013.

BBC BRASIL. Apesar de problemas, eleição na Nigéria é elogiada por órgãos internacionais. Disponível em: http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2015/03/150329_eleicao_nigeria_elogios_mdb. Acesso em: 15 abr. 2015

COSTA, Igor Albuquerque D. C. A vulnerabilidade da economia da Nigéria: petróleo, crescimento econômico e subdesenvolvimento humano. Monografia – Universidade de Brasília, Instituto de Relações Internacionais. Brasília, 2013. Disponível em: <http://bdm.unb.br/bitstream/10483/6786/1/2013_IgorAlbuquerqueDamiaoCorreadaCosta.pdf>. Acesso em: 08 set. 2014.

EGBULA, Margareth; ZHENG, Qi. China and Nigeria: a powerful south-south alliance. West African Challenges, n. 5, 2011. Disponível em: <http://www.oecd.org/china/49814032.pdf >. Acesso em: 07 fev. 2014.

GAIST, Thomas. Former Military Dictator Muhammadu Buhari Wins Nigerian Presidency. Global Research, 2015. Disponível em: http://www.globalresearch.ca/former-military-dictator-muhammadu-buhari-wins-nigerian-presidency/5439998. Acesso em: 10 abr. 2015.

OLIVEIRA, Guilherme Ziebell de. Nigéria: história da política externa e das relações internacionais. Monografia – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Departamento de Economia e Relações Internacionais, Porto Alegre, 2012. Disponível em:http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/71691/000879352.pdf?sequence=1. Acesso em: 03 set. 2014.

U.S ENERGY INFORMATION ADMINISTRATION. Nigéria. Washington: U.S

Department of Energy .2013. Disponível em: <http://www.eia.gov/countries/cab.cfm?fips=ni>. Acesso em: 08 set. 2014.

WAGNER, Daniel; CAFIERO, Giorgio. China and Nigeria: neo-colonialism, south-south solidarity, or both? The World Post, 2013. Disponível em: http://www.huffingtonpost.com/daniel-wagner/china-and-nigeria neocolo_b_3624204.html. Acesso em: 12 out. 2014.

XINHUA NEWS. Xi congratulates Nigeria’s Buhari on election as president. Disponível em: http://news.xinhuanet.com/english/2015-04/03/c_134123868.htm. Acesso em: 07 abr. 2015.

[1] Mestre em Relações Internacionais pela Pontifícia Católica de Minas Gerais – PUC MG (Brasil). Membro do Grupo de Pesquisa sobre Potências Médias (GPPM). Email: flopes.barbara@gmail.com. https://lattes.cnpq.br/1904014725056214

[2] Entrevista disponível em: http://edition.cnn.com/2015/04/01/africa/nigeria-presidential-election/.

Sobre grupopotenciasmedias

Professor de Relações Internacionais http://lattes.cnpq.br/9222226371192929
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