Política externa e crise política.

por Gabriel Pimenta*

O debate da Assembleia Geral da ONU é um momento de destaque da política internacional na imprensa, levando chefes de Estado a aproveitar a ocasião para exibir grandes projetos e fazer anúncios para diferentes plateias, como outros líderes políticos e o público interno. O discurso da presidenta Dilma Rousseff no dia 28/09 não fugiu à regra e apresentou tanto iniciativas de política externa quanto comentou questões relativas à agenda interna.

No campo externo, ao abordar a crise dos refugiados, a presidenta reforçou a posição brasileira de rejeitar intervenções militares como solução de crises. Ao ligar a instabilidade atual no Norte da África e Oriente Médio a intervenções militares como a ação da OTAN na Líbia, a qual o Brasil se opôs, o discurso sustentou a noção de que soluções militares devem ser evitadas tendo em vista seu custo humano e perturbação da ordem internacional. A referência a Cuba e Irã mostrou que hoje há convergência entre posições brasileiras e estadunidenses, o que deslegitima parte das críticas oposicionistas. Os pronunciamentos sustentam a proposta de reforma do Conselho de Segurança, reanimada pelo recente encontro de líderes do chamado G-4, grupo composto por Alemanha, Brasil, Índia e Japão na busca pela reestruturação do fórum.

O discurso também enfatizou a posição brasileira nas negociações sobre questões ambientais. A extensa apresentação das metas brasileiras para a COP-21 situou o país como um líder no tema, posição que pode ser questionada. Se por um lado o Brasil é o país em desenvolvimento com as mais ousadas metas de contribuição nacional contra as mudanças climáticas, por outro lado não houve grandes avanços em relação ao que havia sido apresentado para a COP-15 em 2009.

Para o público interno, o discurso assegurou a continuidade do ajuste fiscal dentro das atuais possibilidades do poder Executivo. Ao salientar a solidez da economia nacional, a presidenta reiterou a perspectiva de que a retração é conjuntural e pode ser superada em curto prazo, caso haja a colaboração de outros setores governamentais. Mais importante é a referência ao combate à corrupção, uma admissão de problemas pouco comum na diplomacia. A fala indicou que, para a presidenta, ações de investigação e prisão de políticos e empresários terão prosseguimento. A declaração se volta para o eleitorado que vê na corrupção o problema central da política brasileira e confirma a distância entre a presidenta e seu partido, já que em termos eleitorais o principal prejudicado pelas ações em curso é próprio PT.

Nos setenta anos da ONU, o discurso brasileiro trouxe a possibilidade de recuperação do protagonismo do país em questões globais e sinalizou para possíveis soluções, ainda que complexas, para o quadro de instabilidade interna.

(Texto publicado originalmente no jornal O Tempo em 04/10/2015 e publicado aqui com autorização do autor)

* Professor do Curso de Relações Internacionais da Universidade Federal de Uberlândia (UFU)

Mestre em Relações Internacionais pela PUC Minas

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