AS TENSÕES ENTRE EUA E CHINA E A CÚPULA DO G7 EM 2021

Economia 18.06.2021 às 16:40

AS TENSÕES ENTRE EUA E CHINA E A CÚPULA DO G7 EM 2021

Líderes dos países do G7 posam para a ‘foto de família’ na inauguração da cúpula de Carbis Bay, em Cornwall, Reino Unido, em 11 jun. 2021 (Crédito: Ludovic Marin/AFP)
Por Leonardo Ramos*

Texto originalmente publicado no site do OPEU.

Em um contexto marcado pela pandemia da covid-19 e por suas consequências para a política mundial, foi realizada nos dias 11-13 de junho de 2021 a 46ª cúpula do G7 – grupo formado por Estados Unidos (EUA), França, Reino Unido, Alemanha, Itália, Japão e Canadá –, em Cornwall, Reino Unido.

Nos últimos anos, o G7 vinha de um acúmulo de dilemas. Em Charlevoix, Canadá, em junho de 2018, já a bordo do Air Force One, o então presidente estadunidense, Donald Trump, cancelou, por meio de um tuíte, sua anuência à declaração final da cúpula. Em Biarritz, França, em agosto de 2019, vários analistas acreditavam que sequer haveria uma declaração final, como tradicionalmente ocorre nas cúpulas do G7. Houve, sim, uma declaração final, mas substantivamente curta, sem grandes afirmações acerca de compromissos que teriam sido assumidos pelos países-membros do grupo. E, finalmente, em 2019, a cúpula estava prevista para ocorrer em Camp David, EUA, em junho, mas foi adiada indefinidamente em função da pandemia.

Se somarmos a isso a recente eleição de Joe Biden para a Presidência dos EUA e sua ênfase na retomada do engajamento multilateral do país, vemos, então, que havia uma grande expectativa com relação à cúpula de 2021 do G7. Na verdade, para muitos, a cúpula de Cornwall seria um momento importante para identificar o possível papel do G7 na política mundial nos próximos anos. Neste sentido, algumas decisões importantes foram tomadas nesta reunião, com destaque para os seguintes temas: (i) covid-19; (ii) mudança climática; (iii) imposto global sobre grandes corporações; (iv) investimentos em infraestrutura nos países em desenvolvimento. Várias críticas foram levantadas, porém, a respeito de cada uma delas.

Críticas à agenda do G7

Com relação ao combate da covid-19, foi reafirmada a importância da Organização Mundial da Saúde (OMS) na coordenação do sistema global de saúde, bem como da iniciativa COVAX como o principal meio de provisão de vacinas para os países mais pobres (G7, 2021, §6 e §8). Neste sentido, os países do G7 se comprometeram a doar o equivalente a 1 bilhão de doses de vacina no prazo de um ano, via COVAX, para os países em desenvolvimento. Deste total, pelo menos metade seria entregue até o final de 2021 (G7, 2021, §9). Tal doação é insuficiente, porém – e pode chegar tarde. Segundo a própria OMS, ainda seriam necessárias 11 bilhões de doses para efetivamente combater a pandemia. Além disso, em um ano, provavelmente muitas mortes ainda ocorrerão.

The Latest: Vaccine shortages hitting poor countries
INSUFICIENTE: Carregamento de vacinas anticovid-19 distribuídas via iniciativa COVAX chega a Abidjan, Costa do Marfim, em 25 fev. 2021. É o 2º país, depois de Gana, a receber imunizantes por este mecanismo (Crédito: Diomande Ble Blonde/AP)

No que diz respeito à mudança climática, foi estabelecido o compromisso com a erradicação da emissão de gases de efeito estufa até 2050, bem como o fim dos subsídios para combustíveis fósseis até 2025 (G7, 2021 §37-39). É notória, porém, a falta de um compromisso financeiro explícito, por parte do G7, para ajudar os países em desenvolvimento a diminuir a emissão de gases causadores do efeito estufa e a lidar com as possíveis consequências do aquecimento global.

Antes da cúpula de líderes, os ministros das Finanças do G7 fecharam, em 5 de junho, um acordo para a criação de um imposto global de ao menos 15% para as grandes corporações. Tal acordo foi endossado pela cúpula de líderes (G7, 2021, §22), que afirmou a necessidade de se ampliar a discussão, incluindo o G20 e a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). A despeito do anúncio, em termos concretos, há o risco de que tais ações levem não a uma mudança na quantidade de imposto pago pelas grandes corporações, mas sim a uma transformação das técnicas de evasão e elisão fiscal. Além disso, tal acordo diz muito sobre a situação dos países em desenvolvimento, sendo notório o silêncio do G7 com relação às propostas do G24 com relação ao tema.

Por fim, foi anunciada a iniciativa Building Back Better World (B3W), voltada para o investimento em infraestrutura nos países em desenvolvimento (G7, 2021, §67). Não foram apresentados grandes detalhes, mas há rumores de que envolverá cerca de US$ 100 bilhões, com agências como US International Development Finance Corporation, Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID, na sigla em inglês), U.S. Trade and Development Agency e Export-Import Bank of the United States (Exim) tendo um papel central neste processo.

A partir de tais apontamentos, salta aos olhos o fato de que, ao longo de toda cúpula, há um ator que, embora formalmente ausente da cúpula, esteve bem presente em todas as principais decisões tomadas: a China.

China: a ausência presente

Se, na primeira cúpula em 1975, em Rambouillet, foi afirmada a necessária relação entre democracia liberal e segurança, dias antes da cúpula do G7 de 2021 essa relação foi ressignificada em um contexto de pandemia global e de tensões com a China. Segundo Matt Hancock, secretário de Estado da Saúde e Assistência Social do Reino Unido, a reunião era uma oportunidade para os países democráticos com relação à segurança sanitária global. Além disso, destaca-se que, dentre os países convidados para a cúpula (Austrália, Índia, Coreia do Sul e África do Sul), dois sejam membros do QUAD (Austrália, Índia, EUA e Japão), arranjo que ganhou importância com Donald Trump e, recentemente, foi fortalecido por Joe Biden.

Particularmente com relação ao combate da covid-19, a diplomacia das vacinas de China (e Rússia) foi abertamente criticada como uma ação que enfraqueceria o multilateralismo. Além disso, foi a primeira vez que o G7 apresentou, explicitamente, uma alternativa à iniciativa Belt and Road (BRI) – apesar de todas as críticas e dúvidas acerca da real capacidade de contraposição do G7 (e dos EUA, em particular) de fazer frente à BRI. E, diferentemente da última reunião do G7, desta vez houve menção inequívoca à China, sobretudo, com relação ao tema dos direitos humanos em Xinjiang e em Hong Kong, a Taiwan e ao mar do sul da China (G7, 2021, §49 e §60) – fora as menções diretas à Rússia nos mesmos termos e a questão da Ucrânia (G7, 2021, §50-51).

China's Response to Climate Change: A Study in Contrasts and a Policy at a  Crossroads | Asia Society
(Arquivo) Presidente chinês, Xi Jinping, em entrevista coletiva no encerramento do Fórum sobre a Iniciativa do Cinturão e Rota, em Pequim, em 27 abr. 2019 (Crédito: Wang Zhao/Getty Images)

A despeito dos limites de tais decisões, destaca-se, neste contexto, a retomada de importância do G7 para os EUA. Se, a partir da eleição de Donald Trump em 2016, o G7 passou a ser uma manifestação clara das diferenças entre os EUA e seus tradicionais aliados, a cúpula de 2021 expressa a volta de Washington e de seu engajamento multilateral, bem como a tentativa de retorno do G7 à política mundial, nos termos finais da própria declaração: “em Cronwall, revitalizamos nossa parceria do G7” (G7, 2021, §70).

Ora, o mundo mudou bastante desde a criação do G7. Em meados da década de 1970, este grupo representava cerca de 80% da economia mundial e, hoje, cerca de 40% – com os EUA sendo responsáveis por grande parte deste percentual. Nesse sentido, se as ações adotadas e as alternativas apresentadas na cúpula lograrão o êxito almejado, e se os EUA conseguirão gerar um novo “poder de atração” para com seus tradicionais aliados e com os países em desenvolvimento em um cenário de crescente presença chinesa, são questões a serem acompanhadas. Em especial, é importante atentar para as reuniões do G20, da COP26 e da ONU, por exemplo, a fim de observar o grau de coerência que o G7 expressará, bem como as reações chinesas (e russas) nestes e em outros fóruns. A ordem internacional liberal está em crise e, seguramente, estes são mais alguns de seus sintomas mórbidos.

Leonardo Ramos é professor do Departamento de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), professor visitante da Universidad Nacional de Rosario (UNR), pesquisador do INCT-INEU e pesquisador associado ao Instituto de Estudos da Ásia, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Contato: lcsramos@pucminas.br.

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